terça-feira, 4 de maio de 2010

A narrativa de intenso vitalismo de Junta-Cadáveres

Juan Carlos Onetti é um importante nome da narrativa contemporânea, se não, a mais importante rubrica que consta na literatura uruguaia de nosso tempo. Converter em letra os sons, os sabores, os odores, as intenções, os gestos e os movimentos que compõe a aventura vital é, sem dúvida, o prazer que nos oferece a literatura. No caso do escritor uruguaio (nascido em Montevidéu em 1909 e falecido em 1994 em Madrid, onde permaneceu durante os últimos 19 anos de sua vida), a conversão da letra em “matéria” se dá numa espécie de condensação do texto como imagem, como se tudo estivesse dito de uma só vez. È preciso deixar-se levar, estar aberto para o acaso, as idéias contidas nas entrelinhas recompensam a leitura na medida em que se descobre o escrito dentro do escrito, a cena dentro da cena, como num auto-retrato que se dá a conhecer num infindável de variáveis de si mesmo. 

Junta-Cadáveres, romance publicado originalmente em 1964 e recentemente lançado pela Editora Planeta do Brasil, já foi traduzido ao português também em 1968 pela Civilização Brasileira e em 1980 pela editora Francisco Alves, ambas versões traduzidas por Flávio Moreira da Costa. O leitor desse romance vai se deparar com uma ficção onde, numa atmosfera de minúcias descritivas, passeia-se numa narrativa de intenso vitalismo, que estimula os sentidos como se tivéssemos a graça de poder nomeá-los, rodeado de personagens que nada mais são do que homens e mulheres, que carregam sem ilusões o fato de serem homens e mulheres. Pode-se observar ainda que sua literatura desde “Avenida de Mayo-Diagonal-Avenida de Mayo” seu primeiro conto publicado em 1933 até Cuando ya no importe, seu último romance publicado em 1993 (ambos ainda não traduzidos ao português), se revela numa narrativa nada diáfana, pois para Onetti escrever não é impor uma forma para representar o mundo, e sim, estar do lado do informe. Como diria Gilles Deleuze: Escrever é um caso de devir, sempre inacabado. O devir é encontrar a zona de vizinhança da indiferenciação, do indiscernível tal que não seja possível distinguir entre uma coisa e outra. A sua narrativa se configura por uma escrita em rede que avança além das fronteiras de cada livro. O leitor que tiver a oportunidade de comparar os dois romances publicados recentemente, A vida breve e Junta-Cadáveres, pode observar a reiteração de personagens (e inclusive de trechos curtos) que se repetem com algumas alterações.

Junta-Cadáveres o romance que agora temos a oportunidade de ler na tradução de Luis Reyes Gil, conta uma história que ocorre na pacata e provinciana cidade de Santa Maria. É importante lembrar que esta cidade surge na narrativa de Juan Carlos Onetti em A vida breve (romance de 1950 e publicado no Brasil pela editora Planeta do Brasil em 2004). Nessa cidade, se ambientam alguns dos romances e contos mais importantes da narrativa onettiana. A cidade já foi comparada à Comala de Juan Rulfo e à Macondo de Gabriel Garcia Márquez. Nela, Larsen (importante personagem da narrativa de Onetti) se encarrega de montar e gerenciar um prostíbulo que só foi possível abrir, após a aprovação pela câmara de vereadores, do projeto que aguardou 12 anos por um parecer favorável. O projeto é de autoria do conselheiro e boticário Barthé, que obtém a aprovação fazendo acordos e concessões, atos comuns no mundo da política. Assim, o prostíbulo se estabelece a partir de planos e concessões permeadas por hipocrisia, negociações e a angústia que acompanham toda possibilidade de fracasso iminente.

A instalação do prostíbulo, divide as opiniões na cidade. O padre Bergner, colérico, impõe a sua idéia desfavorável à presença do prostíbulo a cada sermão. Assim também o faz seu sobrinho Marcos Bergner no balcão do bar Berna. Os Bergner, cada um em seu espaço de “pregação”, alimentam a organização da “Liga da decência” ou “Liga dos Cavalheiros” que incentivam e contribuem com as moças da “Ação Cooperadora” que, em cartas anônimas, lançam denuncias das visitas de irmãos, noivos, filhos e maridos ao prostíbulo. Entre estes fatos, se entrelaça a história de Jorge Malabia, jovem de 16 anos que mantém encontros noturnos com a viúva de seu irmão, Julita. Malabia, ao apoderar-se da voz narrativa, em certos capítulos do romance, conta seus momentos com o velho Lanza que, por sua vez, lhe conta o passado de Marcos Bergner (irmão de Julita) e suas experiências quando vivera um tempo num falanstério. O leitor, perceberá a presença de Díaz Grey, o médico da cidade, e as explicitações sobre a sua teoria do medo, certamente elaborada em seus momentos de observação no bar Berna. Afirma Díaz Grey: “O homem é dissipação, (...), e medo de dissipação”.

Junta-Cadáveres pode ser considerado um clássico da literatura hispano-americana, e sem exageros, um clássico da literatura universal. Mas, como diz o velho Lanza ao jovem Malabia: “Neste tipo de coisas não interessam opiniões. Quem as leva a sério está perdido”.

publicado em REA - Revista Espaço Acadêmico Nº 61 - junho/2006 - ISSN 1519.6186 

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